de tempos de sol

São suas todas as canções lindas

E as coisas, as coisas mais lindas

só são porque lembram você


É seu o sol, que nasce em cor

Acorda o dia e abre em flor

Que brota em mim e em meu canteiro


E como eu, é sua a lua nova

Sorriso aceso no céu

Cheia de tudo que sou

No tempo de ter você


Tem você também no vento

Onde piso e bato asa

E na brisa leve que passa em minha janela


Você me faz poesia

É calma, a cama, a alma

E um trevo de quatro folhas

Num dia de quase setembro


É seu o cheiro de amigo

O canto e o aconchego

Recomeço, remanso, suspiro

Na nuca o arrepio que dá


São suas as canções mais lindas

E as coisas bonitas que vejo

São suas, são todas espelhos


Do aqui, do agora 

Do melhor lugar

de tempos de se ser

Guarda isso
Guarda o choro
Seu sorriso
Guarda-roupa
Guarda o amor
Guarda tudo o que não for
Produtivo
Lucrativo
Eficiente
Não mergulha
Guarda o grito
bem guardado
Tudo o que
Vier de antes
Já contido
Rasga o mapa
Vai, se esconde
De você
Guarda dentro
Aquele surto
Já nem tenta
Soltar tudo
Largar tudo
Larga disso
Toma tento
Sem conversa
Fica bem aí
Distante
E aceita
Até contente
O esboço de vida
Que te resta

de tempos lunares

Falo do amor que me invade
A alma, loucura
Que a tudo dá sentido
Cria o cais em mim, remanso
Acende o céu por onde eu piso

Relógio na parede
Não marca hora
Diz que é tempo, há tempo

De amar
Mas há medo

Falo então pro amor que é cedo
Digo a ele que se cale
Que se guarde na saudade
E o resto no pensamento

Digo que ainda não cabe
Esquecer tanta pergunta

Mas e se depois for tarde?

Por ora hoje me convenço
Na certeza de ser talvez
Seguro, morro de velho
Mas não de amor outra vez

E o amor, enclausurado
Contido e contrariado
Espia, com pouco alarde
Pela cortina fechada que esconde

A luz quase solar da manhã
A pedra prendendo a pipa no chão
A lua em eclipse total
Enquanto olho a televisão

de tempos imprevisíveis

Será mesmo isso?
Será que o destino,
Esse amigo insensato
Rota imprevisível
Será que que os astros
No tempo infinito
Será que no cosmos
Já tinha escrito
Todas essas voltas
Que a gente ia dar?

Será que era certo
Num dia distante
Que naquela noite
Teus olhos descrentes
De moço tão sério
Iam se esbarrar
No meu já cansado
Sorriso insistente
De paz inventada
E dali pra frente
Ter novo lugar?

Nem bem acredito
Entre tanta gente
Me (re)conhecer
No espelho da história
No colo de amigo
Sossego de abraço
Esperança escondida
No medo do acaso

de tempos de querer

Nos cantos de mundo
Onde nos encontramos
Nos contos, nos tantos
Desejos traçados
Caminhos de nuvem
Nas curvas do corpo
Estrada, entrega
De novo, vontade
De saber-se junto
E ser nunca tarde
O toque acanhado
No lábio mordido
O gosto molhado
De beijo distante
O medo latente
De felicidade
Saudade amanhã
Vai ser só saudade


Nos cantos de alma
Onde nos encontramos
Nos corpos, no tanto
Em que nos inventamos
Caminhos que a língua
Descobre com calma
Sussurra mordida
Na nuca a boca
As mãos indecentes
No vão entre as coxas
O toque molhado
De sexo distante
Na noite que tarda
Desejo insistente
Suspiro de entrega
De beijo latente
Saudade amanhã
Vai ser só saudade

de tempos de ventos

Juntar as folhas já secas
Dos dias longes
Que ontem seriam amanhã

Colecionar os cacos
Colhidos dos erros
De esperança sempre vã

Costurar o pano
Rasgado e gasto
Que o peito embrulha e desfia

Guardar noutra alma
Lembrança que sufoca
De passado insistente e frio

Ouvir nos pés
vento que traz
Nova canção

Querer vida
Nova estrada
Acreditar

O doce entregar-se
ao medo de quem nos chama
Sem ensaio sem saber

O calmo enrolar-se
Mais um dia em nova trama
Sem pudor de querer ser

Acomodar no beijo
O peito, brisa morna

Entender o tempo
A espera, grata senhora

Confiar no caminho
Que se faz onde pisa

Amar mais uma vez mais

de tempos idos


Falta força
A faca fria
O fruto podre
Versos pobres
Que me escorrem
Rosto afora
Peito aperta
Quase engole
O cheiro amargo
Dessa história

Na garganta
Embrulhada
Nó no estômago
O espaço
De lembrança
Acostumada
Quer fazer de mim refém
Dor que mancha
Essa toalha
Desengano
seca, a lágrima

vira-tempo

sinto tanto penso adianto o tempo dessa canção penso tanto insisto atravesso o passo no meu refrão faço, mais do que posso chego outra ...