de tempos desencontrados

Me diz como pode
Onde você se esconde
Dos meus apelos?
Onde vai
Toda terça à noite?
Quem ouve teus casos?
De longe
Meu colo calado
Onde você está?

Como sobrevive
Nesse faz-de-conta?
Me conta
Como você vive 
Fingindo?
Pra quem anda mentindo?
Com quem dorme
Sozinho?
Quem tenta te amar?

Senta, me conta
Quem mora em teu peito?
Meu chão, nosso encontro
E aguenta teu jeito
Quem teve essa sorte
Ou falta de norte?
Quem pode, contigo
Sonhar sem chorar?

Talvez seja certo
Nosso desencontro
Esse descompasso
O beijo guardado
O nó que foi laço
Que um amor tão pronto
Não sabe esperar





de tempos difíceis



Deve então doer?
Devo então sangrar?
Devo então ser só
Só por ser mulher?

de tempos vazios

No quarto
Apertado
De tão grande
Vazio ainda
Inconveniente
Que no peito
largo, largado
hoje esconde
Desconfia
Teme um dia
Exatamente
Ser mais átrio
Outro quarto
Cheio e só
De tanto espaço

de tempos doídos

Em mim essa dor
Bate como onda quebrante
Quebra como vento
Cortante
Dilacera qualquer sonho
Latente
Faz de mim ex-sonhadora
Descrente
Só mais uma, só mais só
Um vinho
E um retrato empoeirado
Na estante

de tempos de mulher

Que nenhum homem
Ou mesmo mulher
Que porventura vier
Que ninguém
Nunca ninguém
Me faça outra vez
Pensar
Que a culpa é minha
Que sou indigna
De um amor qualquer
Que meu corpo
É pior
Que o de outra qualquer mulher
Outra que como eu
Nunca
Em nenhuma hipótese
Se permita
Por ninguém que aparecer
Se sentir menos do que somos
nós
Do que podemos nuas
em nós mesmas ser

de tempos de mergulhar - ou - beira-eu

clareira, sol vem dar
a cor que eu esqueci
beira de rio

corre, vem levar

traz vento, faz chover
abrir chão,
passo
céu

tanto...

pranto, mergulho
no erro, no rio
nascente
desse despertar

Beira-eu

Clareira, sol vem lá
na cor reconheci
o tom mais alto
tanto em mim

de tempos reais

Fecho os olhos
Cinco minutos
Toca o alarme

Quanta alma
Vai embora
Tanta vida
Aqui me escorre
Nos ponteiros
Do relógio digital

Segue o tempo
Toca em frente
Gente é só
Marionete
No teatro
da vida real

de tempos de sentir vontade

Entra, fica à vontade.
Senta mais um gole.
é cedo, ainda.
Fica até março.
Até mais um pito.
Outubro pode ser tarde.
Quem sai se o peito ainda arde?
Dia acende, Ana parte.
Só.
Te acena, leviana.
Ou tudo que podia ser.
Só fica a vontade.

de tempos de silêncio

Sinto, penso. Quando menos, calo. Só não falo o que em mim escondo. Não me encontro mesmo assim.

de tempos de aventura

Se gosto, me gasto
‎me rasgo em mil
‎me gosto, me gasto
‎me rasgo em mim

Por favor se demore
Sempre que me abraçar
Colada no teu colo
Sinto encontro
Lugar de gostar

de tempos de fins precoces

Meu sonho
tem cheiro de pele
alma carne e osso
fogo de palha
teu rosto quente em mim
arrasa arranha estraga
me rasga
sem saber
sentir

Meu sonho
desvairado devaneio
vai tão bruto quanto veio
e resta
e mostra
hora certa
de sair
voltar
e ver
ali
virar chuva
a estrada-fim

de tempos de revoadas

Passarinho era poesia
Sanhaço, quero-quero, bem-te-vi
Fez verão, fez rima e verso
reboliço, passarinho
Quis até fazer um ninho
Quando passou por aqui

Mas era mesmo canário
Passo solto, pouso ligeiro
Era voo e era vento
Era tanto, e tão pouco o tempo
Que foi então momento
Dia de voar-sair

Sabiá que era, só queria céu
Não haveria de ser meu
O encanto do canto-amor
Desse arteiro beija-flor
Que bem via voar por aí

Vai ser nuvem
passarinho, vai voar

Sei ser leve, se quiser
Se der pra me levar

Leve o que couber no peito
E se eu não estiver lá
Leve logo meu sossego
Que eu daqui me ajeito
E invento
Outro nome pra lembrar

Leve tudo e deixe aqui
O que não der pra carregar

Junto folha, enquanto passa
O tempo, vou fazer casa
João-de-barro
Vai ser nossa, lugar de morar

Volta um dia, se quiser
Prometo, daqui não parto
Só sei querer esse teto
E tento, vou te esperar

E quem sabe então um dia
Numa tarde, com muita sorte
viro parte da poesia
Quem sabe, se for de ventar

Quem sabe um dia
passarinho, te vejo voltar
Teu canto pousar no ninho
No dia certo de amar

de tempos de ser, só

Só posso ser eu, só
Sinto solto
Dou-me ao erro
Chego sempre
Saio tarde

Só posso ser eu, só
Brinco a alma
Dou-me à cama
Bebo a calma
Caio longe

Só posso ser eu, só
Choro largo
Teimo pouco
Em ser outra
Num instante onde sinto

Que só posso ser eu, só.

de tempos de entornar a sorte pelo chão

Fosse isso certo
Fosse essa sorte
Seria tua
No primeiro ato

de tempos de desencontro

Enquanto busco-te
Enquanto, é fato
Custo tanto encontrar teu passo
caminho teu, incerto
Certeza de ser talvez
Enquanto tento, me encontro
E conto, nó já sem ponto
Enquanto isso, garanto
Te juro, enquanto isso
Vou só, mas vou feliz

de tempos de entrega

Sofre tanto
Porque sente
entrega, pula, se joga
E cai
Depois levanta
E assim vai

de tempos de sorrisos molhados

Chorava
Brotava dos olhos
E o que pensava
era dor
Era água, virava
Ganhava forma
Perdia força
Forçava um rio
Que se esvaía

E então ria

de tempos de entrega

Via nele a próxima dor
Do próximo amor
Decepção
Certamente o próximo erro
Certeiro
De ser paixão

E se entregou

de tempos de sonhar acordada

Sou vento
Ensaiando o que não vai ser
Já sem sono
Sonho longe sem poder prever

Sou dia em teu balanço
Encanto
Em pranto encontro nascer
Me perco em sonho
Sol nuvem
Sou amanhecer

Me perco em sonho
Sou nuvem
Seu amanhecer

Me perco em sonho
Sol nuvem
Se eu amanhecer

de tempos de dançar sem música

Faz minha cabeça dançar 
Canto no meu canto
Te esperando vejo o dia passar
Fico sempre um tanto procurando jeito pra te falar

Que você vai me ver
Caindo em contradição
Tento, firmo o passo
Você passa
Me deixa no chão

Tentando te entender
Mas sempre tô na contramão
Claro, me declaro
me deparo com a sua confusão

de tempos singelos - ou da valsinha do amor desperdiçado

Se eu te contar
E se eu me entregar
Não vai me achar
Estranha por fazer
Essa valsinha

Vai sim me achar
Tão boba apaixonada
E dizer que não foi nada
Que eu tava enganada
Quando vi aqui o amor

Mas amor já tava aqui
O amor vem sem pedir
E eu pedi pr'ele sair
Mas não me obedece não
É teimoso o coração

E eu faço agora o quê
Com a lembrança de você?
Onde posso esconder
Esse amor que não vai ser?

vira-tempo

sinto tanto penso adianto o tempo dessa canção penso tanto insisto atravesso o passo no meu refrão faço, mais do que posso chego outra ...