Subo alto, aeronave rumo ao Sul. Quantas ruas por mim lá esperam? Quantos pores do sol onde quer que o sol se ponha por lá? A máquina de voar faz um barulho entorpecente, como se ali dentro só nos viessem uns pensamentos assim bem raros. Coisa que a gente lembra pouco quando tá no chão.
Bem ao lado, à distância de um corredor, um homem de anel grande e brinco prateado espirra a cada 40 segundos. Ouço um ronco que queria mesmo fosse meu. O corpo cansado do ano atormentado só sonha estar deitado. Não é fácil pegar no sono nesse cômodo aéreo coletivo dividido com tanta gente estranha. O homem do anel tem tênis branco daqueles que a gente pisa quando o amigo usa pela primeira vez na escola. E as unhas pretas. Que ofício teria esse moço de cores tão opostas? Com sono, o ouvido tapado da pressão que dá quando a gente tá perto das nuvens, esqueço um cado de coisas que preciso pensar. É o barato que dá o ronco corajoso do motor que fura o céu. Olho a mulher de saltos altos que dá colo à criança que enfim sossegou. Num apito simpático o comandante antecipa a chegada e diz dados sobre o tempo. Meteorológico e cronológico. A curiosidade e o alívio de andar terras novas. O avião vai levando pra lá comigo toda essa gente estranha. Que eu não sei do que vive e se é feliz. Olho a asa esquerda fazendo curva e mostrando um rio marrom. O vento bate e lembra que ainda falta um bocado de ar pra chegar. E nessa estranheza de não saber que esquinas me esperam cruzar, que chãos me vão caminhar, quase me distraio e esqueço, por quase um segundo, de que eu, sim, estou finalmente feliz.
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